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terça-feira, 28 de junho de 2011

Luiz Gonzaga, em 17/10/1988 repórteres Marcos Cirano e Pedro Luís


Luiz Gonzaga, em 17/10/1988
Nove meses antes de morrer, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, deixou gravada uma conversa de mais de uma hora com os repórteres Marcos Cirano e Pedro Luís. Vários trechos desse depoimento permaneceram inéditos até hoje. Veja a íntegra da entrevista e saiba porque ela não foi publicada antes. Essa entrevista foi concedida ao jornalista Marcos Cirano e ao fotógrafo Pedro Luiz, num apartamento do bairro de Boa Viagem, Recife, a 17 de outubro de 1988, portanto nove meses e 16 dias antes da morte de Luiz Gonzaga. Originalmente, ela serviu de base para uma reportagem sobre um novo disco do compositor, publicada pelo jornal carioca O Globo. Em maio de 1989, alguns trechos da entrevista também foram publicados pelo Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco. Mas, a íntegra do depoimento permaneceu inédita até agora.

A entrevista de Gonzagão é comovente. Em vários momentos, ele chora, ao reconhecer que já não tem saúde para ficar de pé sem o auxílio de duas muletas. Faz um balanço da sua carreira artística. Canta trechos de músicas do seu novo disco. Critica o duro jogo de interesses do mercado fonográfico. E decide assumir, através da imprensa, o romance que manteve em segredo por 13 anos com sua última mulher, Edelzuíta Rabelo, a dona do apartamento onde a entrevista aconteceu: “Pode botar aí no jornal que o charme da minha vida agora é Edelzuíta!”

A pedido de Edelzuíta Rabelo, que queria evitar atritos com a primeira esposa de Gonzagão, Helena das Neves, ainda viva na época, a entrevista não foi publicada na íntegra. Fato que só agora acontece. Com a palavra, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião:

Marcos Cirano - São 50 anos de carreira. E aí?
Luiz Gonzaga - Eu acho que corri, corri, corri e acabei parando em casa.

MC - O senhor ta trabalhando um novo disco, né?
LG - É, todo mundo trabalha. Esse disco tem, realmente, uma grande importância para mim. Porque, mesmo que eu não quisesse parar, eu agora to condenando a isso, né, embora eu tenha a intenção de fazer tudo pra continuar. Porque, quando a gente cria, a gente tem obrigação de fazer cultura pra preservar as tradições, pra contar sua própria história. Porque, senão, ninguém vai querer contar, com a mesma empolgação, com o mesmo amor, com a mesma garra que eu sempre dediquei, de uma maneira completamente diferente, procurando sempre as estradas, sempre os caminhos em busca das cidades onde eu tinha certeza que existia uma colônia forte de cabeças-chatas esperando por mim. Então, aí eu instalei, instalava minhas tribunas. Estivesse onde estivesse: no noroeste, no oeste, no sul, em São Paulo, no sul do sul… Onde eu ia, encontrava as colônias nordestinas. Saudosas colônias sem administração, sem mando, furando novas…vamos dizer assim, procurando se apossar de um pedacinho de terra, um meio de vida melhor… E eu cantava pra eles, lá onde estivesses, as canções mais bonitas, as mais fortes, as mais tristes, que fazia todo mundo chorar… meu objetivo não era esse, mas acontecia. Às vezes, eles choravam com uma coisa alegre que eu cantasse. (Gonzagão tenta, mas não consegue prender o choro)

MC - Nesses 50 anos de carreira, o senhor fez tudo o que teve vontade? Na música e nas andanças.
LG - Só não fiz porque, naturalmente, meu talento não dava. Mas, enquanto meus companheiros achavam que as minhas idéias eram boas, a gente fazia juntos. Fora àquelas que eles criavam para mim… Humberto Teixeira, Zé Dantas. Antes deles, Miguel de Lima. Depois, Zé Marcolino, aqui do sertão, que morreu recentemente em desastre de automóvel… Então, assim, eu fiz, modéstia à parte, um grande acervo que ainda não está exposto, mas está em Exu, esperando a oportunidade de ser exposto no Museu Luiz Gonzaga.

MC - O que está faltando para esse acervo ficar exposto?

LG - Ta faltando administração, eu sou péssimo administrador. Material tem até sobrando, que dá até pra três museus. Mas, museu, no Brasil, parece palavrão… A minha intenção é de ajudar a imprensa e os pesquisadores que, quando precisarem escrever algo sobre Luiz Gonzaga, sobre Humberto Teixeira, Zé Dantas, meus outros excelentes companheiros como Onildo Almeida, Janduhy Filizola, ambos de Caruaru, então vocês vão ter condições de pesquisar capas de LPs, LPs, reportagens… Eu quero oferecer isso para você que tá me procurando aqui hoje e que é jovem, daqui há algum tempo você vai a Exu e lá você encontra tudo, todo acervo do Rei do Baião, fácil, fácil, palpável, e escreve o que você quiser. Não sobre mim, mas sobre o Nordeste, sobre as músicas que eu criei.
Gonzagão pára um instante, depois prossegue:
Descobri o Nordeste musical, musicalmente falando. Não foi o Nordeste, foi o Sertão. O Nordeste sempre teve os seus carnavais, suas festas tradicionais para exibir as suas canções. Mas, eu esbarrava sempre, no Rio de Janeiro, para vencer, contra tudo e era barreira quase invencível. De vez em quando, aparecia um seresteiro, como Augusto Calheiros e mais alguns, que, através de suas vozes, eles contavam as coisas engraçadas do Nordeste, como Manezinho Araújo.
Mas, não com a boa intenção que eu me apresentava, em cima de caminhão, levando o patrocinador nas costas, fazendo espetáculos nas praças públicas, improvisando espetáculos em determinadas praças…
Agora, tudo isso por quê? Porque eu não me achava bastante suficiente para concorrer com ninguém. Eu tinha que levar minha música diretamente àqueles que ignoravam totalmente o Nordeste. É claro que os colegas compareciam e coloriam o ambiente. Mas, o objetivo era cantar para os barrigas-verdes, os gaúchos, os caipiras, os cariocas. E conseguia, quase sempre, patrocinadores. Então, eu tinha liberdade. E assim, no meio desse público, eu era acolhido de surpresa até…
Ali no meio desse público tinha Caetano, tinha Gil, tinha muitos cantores doidos por aí, famosos hoje, que já mudaram de roupa várias vezes, hoje são até roqueiros, mas mesmo como roqueiros continuam afirmando que Luiz Gonzaga o influenciou, o influenciaram. E eu tava dando uma de Deus, escrevendo certo por linhas tortas. Totalmente despreparado mas, quando eu soltava alguma coisa, eles sentiam que tinha um sabor tão especial que não dá nem pra se lembrar qual a sua origem. E eu levava as coisas que aprendi na minha infância, com meu pai, as piadas do velho Januário, que meu pai era muito espirituoso. E fui me tornando um artista assim, espontâneo. Atingi praticamente todas as camadas sociais, cassinos etc., mas nunca me empolguei pela a cidade grande e a saudade do Nordeste sempre foi eterna. Hoje, graças a Deus, bem sucedido, menos com a saúde, continuo cantando com graça o meu forró. Como, por exemplo, (recita):
Tô doidim pra me deitar naquela cama
To doidim pra me cobrir com teu lençol
Doidim pra te matar de cheiro
Juntar os travesseiros
Soprar o candeeiro e começar nosso forró
Esses versos vão ser gravados agora, são de uma música de João Silva e Luiz Gonzaga, do meu último LP. Nem decorei ainda, porque eu só péssimo decorador até das minhas próprias coisas. É uma mão-de-obra desgraçada! O nome dessa música é Vou te matar de cheiro. Quer dizer, uma linguagem dessa, meu filho, pra um cara que vem do mato… Isso sempre foi a minha primazia.

MC - Essa música é do novo disco que o senhor vai lançar?
LG - Essa música é do próximo LP. Até doente eu boto tempero e graça nas minhas coisas.

MC - Esse próximo disco já está todo pronto?
LG - Ta todo arrumado aí, as músicas feitas, mas a doença e a preguiça não me deixam fechar. Mas, como eu tô sentindo um cheiro de melhora… Eu tenho horas que eu sofro muito, porque eu tô sofrendo de uma doença chamada… (Gonzagão não consegue pronunciar a palavra osteoporose e pede auxílio a sua companheira Edelzuíta: como é o nome da danada da doença? Venha cá, você não pode ficar longe de mim, não, porque você é a minha memória)… Ela vem me atacar os ossos, justamente os que foram fraturados ao longo da minha carreira. Essa doença me ataca, tirando o meu rebolado e o meu charme. Meu charme agora é Edelzuíta. (A companheira de Gonzagão interfere: “Não bote isso aí não, que vai dar confusão”, mas ele insiste: Bote no jornal que o meu charme agora é ela, o amor de minha vida).

MC - Os acidentes que o senhor sofreu foram muitos. Alguns até acabaram virando música. Quantos acidentes foram?
LG - Ih!…Já perdi a conta. Fraturei dez costelas, fraturei a clavícula, fraturei o crânio e, agora, essa osteoporose está me derrubando. O primeiro acidente foi em 1951, foi aquele de Santos, que o carro mergulhou de uma ponte de uns quinze metros, com todos nós dentro. Deu até uma música de Zé Gonzaga, meu irmão (canta): E Luiz Gonzaga não morreu… De lá pra cá, foram mais uns quatro ou cinco acidentes. Mas, o que eu andei mais perto da morte foi esse que me fraturou aqui (aponta para o lado direito da testa). Eu fiz duas operações, porque atingiu o olho, mas acabei cegando dele. Isso foi na estrada de Miguel Pereira. Gonzaguinha tava comigo e o anão Salário-mínimo também. E a maior vítima foi eu. Mas escapei com vida. Isso foi em 1962, parece. (Gonzaga fica alguns instantes em silencio, depois continua): Mesmo assim, ainda me sobrou algum charme pra encontrar uma mulher bonita e inteligente pra tomar conta de mim.

MC - A osteoporose, o senhor vem sentindo desde quando?
LG - Ela só foi localizada agora, aqui no Recife. O primeiro ataque dela foi no fêmur. E é por isso que eu estou usando essas gonzaguetes (mostra as duas muletas que utiliza para andar, ainda assim com bastante dificuldade). E dizem que fêmur é bicho muito atrevido, até hoje ninguém encontrou medicina que o dominasse.

MC - Faz mais ou menos um ano que o senhor vem sentindo os sintomas da doença?
LG - Não, isso faz muito tempo. Mas, eu só vim me interessar depois que comecei a sentir a obrigação de usar muletas. Agora, vem de muito antes.

MC - Eu me lembro que, durante algumas apresentações na televisão, o senhor sempre estava aparecendo sentado, pra poder segurara a sanfona
LG - Pois é, pois é. E nem sanfona eu toco mais, não dá mais. Eu já não gravo com sanfona há mais de dez anos. Depois que eu comecei encontrar sanfoneiros capazes, tocando melhor do que eu (e Dominguinhos foi o primeiro) e esses sanfoneiros começamos a declarar que eu tinha sido seu incentivador, seu mestre, aí eu digo: e o que é que eu tô fazendo aqui tocando sanfona de graça, se minha voz vale muito mais do que minha tecla? Aí, passei a usar esses meninos me acompanhando, com muito mais arte, mais graça. Ora, se nessas alturas, eu já passei a ser conhecido como um afortunado de tantos dotes dados por Deus, nada melhor do que distribuir com aqueles que estavam seguindo meu caminho com honestidade. Tem Oswaldinho, Dominguinhos, Valdones de Fortaleza, um garoto de 15 anos tocando magistralmente, um garoto rico e bonito. O Valdones tem até um estúdio em casa, o pai faz todas as vontades dele, o garoto ta numa carreira bonita. Quer dizer, por isso eu acredito que o forró não vá morrer. O baião não morreu, o forró, feito do baião… Então, eu acredito que essa música vai pra frente. Porque o Nordeste dá isso, oferecendo sua graça.
Sábado agora, eu botei cerca de vinte mil pessoas no Spázio, uma verdadeira festa, muito bonita, feita especialmente pra mim. Estavam lá Fagner, Elba Ramalho, Genivaldo Lacerda, Gilberto Gil, Dominguinhos, Alcimar Monteiro que ta indo muito bem, Jorge de Altinho…

Pedro Luís - Jorge de Altinho andou sumido um tempo, né?
LG - Não, Jorge de Altinho é o mesmo. É porque, de repente, o forró tornou-se…é…Demasiadamente oferecido. Quer dizer, várias fábricas… A minha fábrica, por exemplo, gravou esse ano seis discos de forró. Então, é muita oferta. Mas, Jorge de Altinho sempre foi um cara pra frente e irá muito mais. Como ele é jovem, ele pode mudar para onde quiser. Mas, ele é fiel ao forró.

MC - O seu novo disco vai ser lançado quando?
LG - Logo depois do carnaval, que é quando se começa a lançar forró, uma música sugestiva, uma música quente, cheia de graça. Depois do carnaval até junho é com nós. Nós ocupamos o miolo do ano.

MC - A partir de quando, mesmo, não deu mais para o senhor segurar a sanfona?
LG - Eu vinha tocando, porque ela sempre foi o meu apoio e eu sempre gostei. Porque eu criei um estilo. Mas, além desses problemas que eu sofri, me apareceu uma doença na coluna, as viagens muito prolongadas, horas e horas viajando de automóvel. E eu ia controlando. Quando eu perdi o rebolado, mesmo, que localizei o problema… Demorei um pouco… Eu disse: vou dar uma de professor, vou avisar a meus colegas pra ter muito cuidado com o peso da sanfona.
Vá ver que quase todo sanfoneiro está hoje meio corcunda. Porque eu criei uma arte muito pesada. Nós não temos condições, aqui no sertão, de pagarmos orquestras nem instrumentos eletrônicos. E a sanfona é um instrumento do ar livre e ela resolve um baile à noite inteira, gostosamente, com o seu próprio som. E os caboclos sanfoneiros, forrozeiros, gostam muito do seu trabalho e tocam a noite inteira, incarriado. Estão entrando num cano deslumbrante, como dizia aquele pernambucano que escrevia no jornal sobre futebol, humorista, que escreveu peças de teatro, que é irmão de Mário Filho, jornalista primoroso…
Como era mesmo o nome dele? Isso, Nelson Rodrigues. Ele foi quem criou esse termo cano deslumbrante. Eu entrei num cano deslumbrante. Então, foi isso. Essa doença, que tá aumentando cada vez mais em nós, a coluna vertebral, que trouxe também para mim. Aí, eu não podia mais com o peso da sanfona. Fazia um ensaiozinho, uma coisinha, mas vinha logo a dor.

MC - O senhor lembra qual foi o último show em que o senhor tocou?
LG - Não, eu não gosto de lembrar. Porque, só de lembrar, eu sinto dor. (Gonzagão baixa a cabeça, faz cara de choro e fica alguns instantes em silêncio).

MC - A sanfona pesa quantos quilos, normalmente?
LG - Quando eu comecei a tocar, o peso normal dela era de 12 quilos pra cima. Aí, eu passei a prestigiar a sanfona nacional, porque eu tinha acesso à fábrica e lá eu dava as minhas idéias. Naquela altura, nós tínhamos uma espécie de umas 12 fábricas de sanfona. Hoje, só temos uma e se arrasta. E eu dizia: “Olha, gente, deixo um pedido aqui do velho sanfoneiro e tal… Nós estamos usando instrumento errado, com o peso desconforme para o nosso físico, pra o nosso clima, principalmente para nós, nordestinos, que é que mais usamos sanfona. Manera no peso. Eu quero mandar fazer uma sanfona aqui com nove, dez quilos…” E consegui, eles fizeram. É tanto que todas as capas dos meus discos são com fotos de sanfonas brasileiras. Mas, a sanfona de Dominguinhos pesa 16 quilos. E eu falo com ele: “Te cuida, Dominguinhos! Você é grossinho, mas vai afinas as pernas, vai entortar as pernas.”Ta entortando. É muito peso, sabe?
Então, quando eu mi vi cantando sentado, eu aproveitava e fazia um pouco de apologia à sanfona e caía, justamente, nessa questão aí. Sim, porque os italianos eram os fabricantes de sanfona, não são mais, hoje já caíram fora. E o clima deles, já viu como é que é, né?… Clima frio. As comidas deles são saborosas, cheias de força. O físico deles é diferente, são sempre parrudos, mais do que nós… Por que, agora, a gente vai carregar o peso deles também? Isso eu falo no palco, quando estou bem disposto. Ou, quando tô sentindo dores, falo com raiva, né. Deus me deu o dom de falar, com a minha própria linguagem, despreocupado, sem medo de errar, porque o povo já sabe que eu não sou intelectual, então eu mando brasa. (Gonzagão ri gostosamente).

MC - Onde fica essa fábrica brasileira de sanfona?
LG - A única fábrica de sanfona, hoje no Brasil, fica no Rio Grande do Sul. Hoje, só tem a Universal. Essa fábrica não é dotada de bons técnicos. A que mais evoluiu foi uma chamada Todesquini. Mesmo assim, não agüentou, porque queria vender muito instrumento e não dava. Chegaram as guitarras eletrônicas, sanfonas eletrônicas e tal…

MC - Dá pra dar uma geral sobre o que vai ser o seu novo disco?
LG - Não, dá não. Porque eu só venho a decorar, mesmo, depois de gravar. É uma preguiça lascada.

PL - Será que é outra doença, essa preguiça?
LG - Não, é não… Eu vou gravar uma música conhecida, chamada Estrada de Canindé… Não… É, deixa lembrar… Sertão de Jequié, que foi gravada por Dalva de Oliveira. (Gonzagão canta. Primeiro, confunde a letra com os versos de Estrada de Canindé. Depois, acerta a letra e canta Sertão de Jequié inteira). Essa música é de Cléssio (Klécius/Cléssius) Caldas e Armando Cavalcanti, dois carnavalescos do Rio de Janeiro, que me deram dois grandes sucessos: um foi Boiadeiro, que é meu prefixo e sufixo (cantarola) e me deram outra também muito bonita, chamada Meu cigarro de palha (canta). Eu cantava também, mas nunca gravei, vou gravar agora.

MC - Nunca gravou Meu cigarro de palha?!
LG - Não, não… Peraí… Nunca gravei Sertão de Jequié.

MC - Além de Sertão de Jequié, o resto do disco é tudo músicas novas?
LG - É. Tem uma de Antônio Barros, que eu gostei muito, chama-se Coração de pudim: Meu coração é feito de manteiga ou de pudim/Molim, molim, molim, molim/Falei com esse sujeito pra não me deixar assim/Molim, molim, molim, molim… É uma música de Antônio Barros, aqui de João Pessoa. Ele me deu também outro forrozim muito gostoso, chamado Lagoa do Amor (cantarola alguns versos).

MC - Com esse disco a ser lançado no próximo ano, são quantos discos gravados durante os 50 anos de carreira?
LG - São 55. Com esse que vai sair, são 56. (Gonzagão comenta o disco que gravou com Fagner. Pergunta a Edelzuíta se ela quer ouvir uma faixa, pede que a companheira coloque a faixa que mais gostou e ela escolhe Amanhã eu vou. Enquanto todos, na sala, escutam a música, Gonzagão cantarola baixinho e de cabeça baixa. No final, reage): Ô véio enxuto da molesta! Tô com 76 anos nas costas, com 74 eu gravei isso aí. Nunca fumei, apesar de gostar muito daquele cheiro; de fazer propaganda de fumo… Mas, pra que fumar? Só pra imitar os outros?!

MC - E beber?
LG - Beberiquei algumas besteirinhas. Adorava uma cerveja lascada. (Dirigindo-se ao fotógrafo Pedro Luiz, Gonzagão pergunta): Você é de onde?

PL - João Pessoa.
LG - Tinha que ser! Com essa cabeça de cangaceiro.

MC - Além do disco novo, quais os outros planos?
LG - Viver mais um pouco. Só. Show, mais não. Depois daquele show de anteontem! Foi uma coisa! Quinze ou vinte mil pessoas, e eu sentado lá no palco, vendo tudo isso e sem poder participar. Eu cantei Tropeiro da Borborema, que é uma das coisas mais bonitas de Raimundo Asfora, mas o bom da gente é a gente se sentir em condições de criar mais e ter a impressão que amanhã a gente pode criar um sucesso consagrador… Mas, eu já criei os meus, Asa Branca, Vozes da Seca, Baião, Luiz Respeita Januário… Pra onde é que eu vou mais? Eu me sinto completamente realizado. Mas, eu não gostaria de sair assim, carregado porque não tenho mais pernas. (Gonzagão fica alguns instantes e silêncio).

MC - Não tem mais pernas, mas tem uma grande voz. Vai ficar aí parado?
LG - Não, ainda tenho que fazer mais dois discos, por contrato. Além desse que vai sair o ano que vem, tem outro que ta pronto há dois anos e tudo indicava que ele não ia sair. Mas, só que tive uma coragem de leão em abandonar a RCA Victor aos 28 anos de serviço, 48 anos, 14 de março de 1941, quando eu entrei lá. Saí como um protesto e esse disco estava guardado lá, no fundo do baú. Terminei botando tudo pra fora, porque senti que a minha fábrica atual pode ganhar muito dinheiro com isso e eu não me incomodo que uma gravadora boa ganhe muito dinheiro comigo. Eu ganho o meu pouquinho e fico satisfeito, não chamo ninguém de ladrão. Eu quero é vender meu peixe.

MC - Por que o senhor deixou a RCA?
LG - Olha, é uma história tão escrota, tão podre, que eu nem gosto de contar. E eles estão aí, com três discos meus na praça: o Aí tem, o álbum e esse Amanhã eu vou. Então, eu vou ganhar uma nota muito boa e não quero dar uma de menino mal-agradecido, não tenho mais idade pra isso. Eu quero é me dar bem com as duas (gravadoras), eu quero é as duas brigando por minha causa. E a RCA vai levar vantagem, porque ela tem 48 anos de repertório meu. E a outra vai começar… Talvez isso seja até ruim, três discos na praça… A nova gravadora é a Copacabana, que foi muito leal comigo, foi tão bacana comigo. E eu desejo que as duas ganhem muito dinheiro comigo.

MC - Nenhum projeto para programa de televisão, apresentações?
LG - Nada, nada.

MC - Tá encerrando, mesmo? Uma vez, Dominguinhos disse que o senhor vai morrer no palco e que essa história de despedida era conversa, pois ele já tinha participado de um show de despedida sua, na década de 50.
LG - Em 1953? Será possível? Isso é conversa fiada, é o Dominguinhos me gozando. (Gonzagão dá uma gargalhada e pergunta): Já terminou? É, você sabe escrever, e aí vai dar pra você fazer sua reportagem. Você é de onde?

Tradução do português para inglês

Luiz Gonzaga on 17/10/1988
Nine months before his death, Luiz Gonzaga, the King of Baião, left a recorded conversation over an hour with reporters and Pedro Luis Marcos Cyrano Several excerpts from the interview remained unpublished until now. See the full interview and find out why it has not been published before. This interview was the journalist and photographer Mark Cyrano Pedro Luiz, in an apartment in the neighborhood of Boa Viagem, Recife, October 17, 1988, then nine months and 16 days before the death of Luiz Gonzaga. Originally, it was the basis for a report on a new album of the composer, published by Brazilian newspaper O Globo. In May 1989, some passages of the interview were also published by the Cultural Supplement of the Official Gazette of Pernambuco. But the full testimony remained unpublished until now.

The interview Gonzagão is moving. At various times, he cries, recognizing that health is no longer to stand without the aid of two crutches. Takes stock of his career. Sing snippets of songs from her new album. Criticises the hard game of interests of the music industry. And decides to take, through the press, which kept the romance secret for 13 years with his last wife, Edelzuíta Rabelo, the owner of the apartment where the interview took place: "You can put there in the newspaper that the charm of my life now is Edelzuíta! "

At the request of Edelzuíta Rabelo, who wanted to avoid friction with the Gonzagão first wife, Helena of Snow, still alive at the time the interview was not published in full. Fact that only happens now. With the word, Luiz Gonzaga, the King of Baião:

Mark Cyrano - are 50-year career. And then?
Luiz Gonzaga - I think I ran, ran, ran and ended up stopping at home.

MC - You ta working a new album, right?
LG - is, everyone works. This album really has a great importance to me. Because even if I did not want to stop, I now condemning it to, you know, although I intend to do everything to continue. Because when we create, we are obliged to do to preserve cultural traditions, to tell their own story. Because, otherwise, nobody will want to tell, with the same excitement, with the same love with the same tenacity that I have devoted, in a completely different way, always looking for the roads, always seeking the ways of the city where I was sure that there was a strong colony of flat-heads waiting for me. So then I installed it, installed my galleries. Was where he was: in the northwest, west, south, São Paulo, southern South ... Where I went, found the Northeastern colonies. Nostalgic colonies without administration, command, new boring ... let's say, trying to get hold of a piece of land, a better way of life ... And I sang to them, wherever you were, the most beautiful songs, the strongest, the more sad, that made everyone cry ... that was not my goal, but it happened. Sometimes they cried with a joyful thing that I sing. (Gonzagão tries but can not hold the crying)

MC - these 50-year career, you did everything you wanted? In music and travels.
LG - just did not because, of course, my talent was not enough. But, while my companions thought my ideas were good, we did together. Outside those that they created for me ... Humberto Teixeira, Ze Dantas. Before them, Miguel de Lima. Then Joe Marcolino, here's hinterland, who died recently in car crash ... So therefore I did, modesty aside, a large collection that is not exposed, but is Eshu, waiting for the opportunity to be exposed at the Museum Luiz Gonzaga.

MC - What's missing from this collection to be exposed?

LG - Ta missing administration, I am terrible administrator. Material has to left, giving up to three museums. But the museum, in Brazil, it seems word ... My intention is to help the press and researchers who, when they need to write something about Luiz Gonzaga on Humberto Teixeira, Ze Dantas, my other great companions as Onildo Almeida, Janduhy Filizola, both Caruaru, then you will be able to search the covers of LPs, LPs, reports ... I want to offer this to you who're looking for me here today and that is young, here in a while you go to Exu and there you will find everything, all collection of the King of Baião, easy, easy, palpable, and write what you want. Not about me but about the Northeast, about the music I created.
Gonzagão stops a moment, then continues:
I discovered the Northeast musical, musically speaking. There was the Northeast, was the backwoods. The Northeast has always had its carnival, its traditional festivals to display their songs. But I always ran up against, in Rio de Janeiro, to win, against all and was almost invincible barrier. From time to time, appeared a serenade, as Augusto Calheiros and some who, through their voices, they told the funny things in the Northeast, as Manny Araujo.
But not with the good intention that I had, up truck, bearing the sponsor on the back, doing shows in the streets, improvising shows in certain squares ...
Now, why all this? Because I do not think quite enough to compete with anyone. I had to take my music directly to those who completely ignored the Northeast. Of course, colleagues attended and color the environment. But the goal was to sing for the green-bellies, the Gaucho, the hillbillies, the locals. And I could almost always sponsors. So, I was free. And so, in the middle of the audience, I was received with surprise to ...
There in the middle of the audience had Caetano, Gil had had so many crazy singers, famous today that have already changed clothes several times, until today are rockers, but rockers are still the same as claiming that Luiz Gonzaga influenced, influenced him. And I was giving one of God writing straight with crooked lines. Totally unprepared, but when I let out something, they felt they had a very special flavor that does not even to remember what is its origin. And I took the things I learned in my childhood, my father, the old jokes Gennaro, my father was very witty. And I became an artist so spontaneous. Reach virtually all walks of life, casinos, etc.. But never got carried away by the big city and miss the Northeast has always been eternal. Today, thank God, successful, less health, still singing with grace my forró. How, for example, (recites):
I'm doidim to lie in that bed
To doidim to cover me with your blanket
Doidim to kill you smell
Add the pillows
Blowing out the candle and start our forró
These verses will be written now, is a song from John Silva and Luiz Gonzaga, my last LP. Not memorized yet, because I just lousy decorator until things of my own. It is a hand-to-work bitch! The name of this song is I'll kill the smell. I mean, a language that, my son, to a guy who comes from the woods ... That was always my priority.

MC - This song is from the new album that you will release?
LG - This song is the next LP. I put up ill temper and grace in my stuff.

MC - This next album is all ready?
LG - Ta there all dressed up, made the songs, but illness and laziness will not let me close. But, as I'm feeling better ... a smell I have hours that I suffer a lot because I'm suffering from a disease called ... (Gonzagão can not pronounce the word osteoporosis and your partner asks for help Edelzuíta: how is the name of the damned disease? Come here, you can not get away from me, not because you're my memory) ... She comes to attack me the bones, just the ones that were broken throughout my career. This disease attacks me, taking my hump and my charm. My charm is now Edelzuíta. (A companion Gonzagão interjects: "No boat so there are no, trouble is brewing," but he insists: Put in the paper that it is now my charm, the love of my life).

MC - accidents that you have suffered a lot. Some even have become the music. How many were accidents?
LG - Oh! ... I have lost count. Ten fractured ribs, a fractured collarbone, fractured skull, and now this is breaking me down osteoporosis. The first accident was in 1951, was that of Santos, the car plunged from a bridge about fifteen feet, with everyone inside. He gave up a music Zé Gonzaga, my brother (sings): And Gonzaga has not died ... Since then, most were four or five accidents. But what I walked closer to death was that I broke here (pointing to the right side of the forehead). I did two operations, because in the eye, but I ended up blinding him. This was on the road to Miguel Pereira. Gonzales Tava me and the dwarf Minimum Wage as well. And I was the biggest victim. But escaped with my life. That was in 1962, it seems. (Gonzaga is a moment in silence, then continues): Still, I left some charm to find a beautiful and intelligent woman to take care of me.

MC - Osteoporosis, have you been feeling since when?
LG - It was only now located here in Recife. The first attack was in her femur. And that's why I'm using these gonzaguetes (shows using two crutches to walk, still with some difficulty). And they say that animal femur is very cheeky, so far no one has found the medicine that dominate.

MC - It's been about a year since you've been feeling the symptoms of the disease?
LG - No, that was a long time. But I just came to interest me after I started to feel obliged to use crutches. Now comes a lot earlier.

MC - I remember that during some performances on television, you always sitting was appearing, to be able to hold the accordion
LG - Well, it is. And I play the accordion or more, no longer. I no longer record with accordion for more than ten years. After I began to find able accordionists, playing better than I (and Dominguinhos was the first) and these accordionists began to declare that I had been his supporter, his master, then I say, and what am I doing here playing accordion for free, if my voice is worth far more than my key? Then I started using these kids with me, with much more art, more grace. Now if at this point, I've been known as a lucky so many gifts given by God, nothing better than to distribute to those who were following my way honestly. It Oswaldinho, Dominguinhos, Valdonas of Fortaleza, a 15 year old boy playing masterfully, a rich kid and pretty. The Valdonas even has a studio at home, the father does all his wants, the boy is in a beautiful career. I mean, so I believe that forró will not die. The ballad is not dead, forró, made the bay ... So I think this song goes forward. Because it gives the Northeast, offering his grace.
Saturday now, I put about twenty thousand people in the Spazio, a real treat, very beautiful, made especially for me. They were there Fagner, Elba Ramalho, Genivaldo Lacerda, Gilberto Gil, Dominguinhos, Monteiro Alcimar that doing well ta, Jorge de Altinho ...

Pedro Luis - Jorge de Altinho went missing a while, right?
LG - No, George of Altinho is the same. It is because, suddenly, the lining becomes ... ... Too is offered. I mean, many factories ... My factory, for example, this year recorded six albums of forró. So it's a lot to offer. But George was always one of Altinho forward and will face more. As he is young, he can move to wherever you want. But he is faithful to the liner.

MC - Your new album will be released when?
LG - Soon after the carnival, which is when it starts casting forró, a suggestive song, a hot music, full of grace. After the carnival is with us until June. We occupy the core of the year.

MC - After a while, even, did not give you more to hold the accordion?
LG - I was playing, because she's always been my support and I always liked. Because I have created a style. But apart from these problems that I suffered, I appeared a disease of the spine, very long travel hours and hours traveling by car. And I was controlling. When I lost my hump, even, who spotted the problem took me a bit ... ... I said, I will give a teacher, I warn my colleagues to be very careful with the weight of the accordion.
Go see that almost every accordion player is now the middle hump. Because I have created an art too heavy. We have no conditions here in the wilderness, of paying orchestras or electronic instruments. And the accordion is an instrument of the outdoors and it solves a ball all night, gladly, with its own sound. And the natives accordionists, forrozeiros, like much of his work and play all night, incarriado. Are entering a pipe stunning as Pernambuco said that he wrote in the newspaper about football, humorist, who wrote plays, he is the brother of Mario Filho, journalist exquisite ...
What was his name? This, Nelson Rodrigues. He was the one who coined the term barrel stunning. I joined a pipe stunning. So that was it. This disease, which're increasingly more in us, the spine, which also brought me. So I could not with the weight of the accordion. It was a ensaiozinho, a little thing, but soon the pain came.

MC - Do you remember what was the last concert that you played?
LG - No, I do not like to remember. Why, just remember, I feel pain. (Gonzagão lowers his head, crying face and makes is a moment in silence.)

MC - The accordion weighs how many pounds normally?
LG - When I started playing, it was the normal weight of 12 pounds up. Then I started the accordion national honor, because I had access to the factory and there I gave my ideas. At that time, we had a kind of accordion about 12 factories. Today, we only have one and drags. And I said, "Look, folks, leave a request here the old accordion player and stuff ... We're using wrong instrument, weighing not conform to our physical to our climate, especially for us, the Northeast, which is that more use accordion. Manera weight. I want to send an accordion here with nine, ten pounds ... "And I did, they did. It covers so much that all of my albums with pictures of accordions are Brazilian. But of the accordion Dominguinhos weighs 16 pounds. And I speak to him: "Take care, Dominguinhos! You Grossinho, but will tune up your legs, the legs will bend. "Ta bending. It's a lot of weight, you know?
So when I saw myself sitting singing, I took advantage and did a little apology for the accordion and fell precisely on this issue there. Yes, because the Italians were the accordion manufacturers are no longer, today it fell out. And their climate has seen how it is, right? ... Cold Climate. Their meals are tasty, full of strength. The physical one is different, are always stocky, more than we do ... Why, now, we will carry the weight of them too? I say this on stage when I'm in a good mood. Or when I'm in pain, angry talk, you know. God gave me the gift of speaking with my own language, carefree, without a doubt, because people already know I'm not intellectual, then I say hot. (Gonzagão laughs heartily).

MC - Where is the Brazilian factory of cycling?
LG - The only accordion factory today in Brazil is in Rio Grande do Sul Today, only has the Universal. This plant is not equipped with good technicians. What evolved was more a call Todesquini. Still, could not stand because he wanted to sell the instrument and did not give much. Came the electronic guitars, accordions and electronic stuff ...

MC - Can you give an overview of what will be your new album?
LG - No, do not give. Because I only come to decorate, even after recording. It's a sloth chipped.

PL - Is it another disease, this laziness?
LG - No, no ... I'll write a song called, called Road Canindé ... No ... Yes, lets remember ... Wilderness of Jequié, which was recorded by Dalva de Oliveira. (Gonzagão sings. First, it confuses the letter with the verses of Canindé Road. Then hit the letter and sings Wilderness of Jequié whole). This song is Clessie (Klécius / Cléssius) and Armando Caldas Cavalcanti, two carnival of Rio de Janeiro, which gave me two hits: one was Boiadeiro, it is my prefix and suffix (hums) and gave me another equally beautiful, My hand-rolled cigarettes called (sings). I sang too, but never recorded, I will write now.

MC - I never recorded my hand-rolled cigarettes?!
LG - No, no ... Wait ... Wilderness of Jequié never recorded.

MC - In the Wilderness of Jequié, the rest of the disc is all new songs?
LG - Is. Antonio Barros has one, I really liked is called pudding Heart: My heart is made of butter or pudding / Molim, molim, molim, molim / I talked to this guy for not letting me so / Molim, molim, molim, molim ... It's a song by Antonio Barros, João Pessoa here. He also gave me another forrozim very nice, called Lagoon of Love (sings a few verses).

MC - With this album to be released next year, how many discs are recorded during the 50-year career?
LG - are 55. With that goes out, is 56. (Gonzagão says the disk that recorded with Fagner. Edelzuíta Ask if she wants to hear a track, he asks his partner put the track you like best and tomorrow I'll pick her. While everyone in the room, listening to music, humming softly Gonzagão and head down. In the end, hangs): Lean the shaft of molesta! I'm 76 years back, I recorded with 74's it. Never smoked, although they like the smell; to advertise smoking ... But for that smoke? Just to imitate others?!

MC - And to drink?
LG - Sip some besteirinhas. He loved a beer chipped. (Addressing the photographer Pedro Luiz, Gonzagão question): Where are you from?

PL - João Pessoa.
LG - It had to be! With this head bandit.

MC - In addition to the new album, what other plans?
LG - live a little longer. Only. Show, not more. After that show yesterday! It was something! Fifteen or twenty thousand people, and I sat there on stage, seeing all this and unable to participate. I sang Borborema Drover, who is one of the most beautiful of Raymond Asfora, but good for us is we feel able to create more and get the impression that tomorrow we can create a reflected successes ... But I I created my own, Asa Branca, Voices of Drought, Baião, Luiz respects Gennaro ... To where can I more? I feel completely realized. But I would not go so loaded because I do not have legs. (Gonzagão and silence is a moment).

MC - No more legs, but has a great voice. Will stand there?
LG - No, I still have to do two more albums by contract. In addition to this that will come out next year, one that has you ready for two years and everything indicated that he would not leave. But only one had the courage to leave the lion in the RCA Victor 28 years of service, 48, 14 March 1941, when I went there. I went out as a protest and that record was kept there, deep in the chest. I finished putting everything out because I felt that my current factory could make money with it and I do not bother to record a good win much money with me. I get my bit and I am happy, do not call anyone a thief. I want to sell my fish.

MC - Why did you leave RCA?
LG - Look, it's a story so catty, so rotten, that I do not like to count. And they are here, with my three disks in the square: the Here is the album and that tomorrow I will. So I'll make a very good note and do not want to give an ungrateful boy, no more for that age. I just want to get along with the two (labels), I want the two is fighting for my cause. And the RCA will take advantage, because she has 48 years of my repertoire. And the other will start up ... Maybe it's bad, three discs in the street ... The new label is the Copacabana, which was very loyal to me, was so nice to me. And I hope that the two make a lot of money on me.

MC - No project for the television show, presentations?
LG - Nothing.

MC - Yeah ending, right? Once Dominguinhos said you will die on stage and that this story was parting conversation, for he had attended a farewell show you, in the 50's.
LG - In 1953? Is it possible? This is baloney, is Dominguinhos kidding. (Gonzagão laughs and asks): Have you finished? Yeah, you can write, and then will give you to do your story. Where are you from?

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